domingo, 26 de setembro de 2010

Friedrich Gulda e o jazz


No livro Arte do piano: compositores e intérpretes, o autor Sylvio Lago citando Charles de Bos, diz que "o fascínio pela interpretação jazzística talvez tenha prejudicado o modo musical de viver de Friedrich Gulda, pois as liberdades exigidas pelo jazz parecem inconciliáveis com as exigências da atividade pianística erudita". E em outras páginas do livro há essa colocação de que Gulda não era tão bom no jazz quanto no erudito.
Já eu acho isso um preconceito "paia". O pessoal fala do Friedrich Gulda como jazzista, mas pelo menos ele se arriscava a fazer. Tem muita gente que fala dos outros, mas nem tenta fazer.
Por ser brasileira eu não posso falar italiano? Não posso falar francês? Eu posso até aprender com sotaque, mas falo. O sotaque não impede que eu me expresse. Então acho que com a música é da mesma forma. Mesmo que o sotaque seja "erudito" (termo que não gosto de usar e explico o motivo em outra postagem), o músico é capaz de se expressar nessa outra linguagem que é o jazz. E a mistura de diferentes vertentes pode resultar até interessante. Por que não?
As pessoas têm uma neurose de autenticidade na interpretação. Tudo bem. É massa estudar sobre o compositor, a época, assimilar a sonoridade dos estilos, a forma como se faz o fraseado, articulações. Mas no fim das contas ninguém faz igual e isso é muito bom. Se fosse tudo igual seria muito sem graça.
Por isso é que falamos em interpretação. Não é reprodução, não é imitação. É INTERPRETAÇÃO.
O importante é fazer música sem neura.

Imitador de nós mesmos?

No DVD Conversa Noturna, documentário sobre a carreira e vida artística da pianista Martha Argerich, ela faz uma declaração interessante. Ela diz que temos que tomar cuidado para não sermos imitadores de nós mesmos. Eu sempre achei que não devemos imitar os outros. Devemos ter nossa identidade como intérpretes. Certa vez meu professor me perguntou se eu já tinha ouvido a peça que estava estudando. Eu disse que não. Eu prefiro sempre estudar, ter minha concepção da peça para só depois ouvir algum intérprete para que eu não venha a imitar o outro.
Já a Martha Argerich falou que não devemos imitar a nós mesmos. A cada dia devemos recriar, ter novas ideias, fazer uma nova interpretação. O que eu toquei ontem já não serve pra hoje. Muito interessante.