sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Liberdade e estudo de interpretação

Certo colega há muito tempo me disse que não gostava muito do estudo de piano porque às vezes o professor dizia que um certo trecho tinha que ser tocado de determinada maneira. E ele se questionava: Mas por que tem que ser assim?
Conheci certa vez um garoto que na época deveria ter uns 15 anos e ele dizia que na frente do professor e ao disputar um concurso de piano, ele tocava tudo "certinho" como o professor pediu. Mas quando ia tocar pra amigo, ele não estava nem aí. Acelerava ou ritardava, exagerava no fortíssimo da maneira como o professor falou para não fazer. Eu ri demais e achei muito legal.
A questão é que deve haver na interpretação uma coerência com o estilo da época e do compositor. E isso implica em como se faz o fraseado, agógica, articulação,sonoridade, dinâmica. Porém parece haver já uma herança, um padrão interpretativo em certas peças que de certa forma tiram a liberdade. Às vezes quem ousa fazer diferente é questionado. Glenn Gould, por exemplo, foi muito questionado a respeito do andamento que executava certas peças.
O limite é muito tênue entre buscar uma interpretação coerente e perder totalmente a liberdade.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Precisa entender ou basta a contemplação?




Música é pra ser entendida? Por um lado, existe a compreensão estética do que está acontecendo. Segundo Harnoncourt, a compreensão da linguagem musical é importante para que a música reencontre sua unidade, perdida entre música popular e música erudita e também entre música e seu tempo.
Por outro lado, há pessoas que não nasceram num meio que favorece a convivência com a música de concerto, mas gostam mesmo assim.
Meu pai nasceu na fazenda e só foi alfabetizado aos 14 anos. Na juventude quando se mudou para uma cidade grande, ouviu pela primeira vez o concerto 1 de Tchaikovsky para piano e orquestra e ficou encantado.
Certo rapaz que recentemente ouviu um recital de obras de Cláudio Santoro e Guerra Peixe disse que não entendeu nada, mas gostou. kkkkkkk. Algumas dessas obras eram dodecafônicas, totalmente diferentes do que habitualmente se ouve por aí no rádio e na mídia em geral.
Arnaldo Cohen em uma entrevista disse que certa vez tocou e um funcionário do teatro ouviu o tempo inteiro atrás da cortina. Falou para ele que aquilo era do céu. Com isso ele queria dizer que bastava a contemplação da arte. Não precisava de muitos aprendizados e achar que é algo "elevado" demais para sua compreensão.
Realmente a apreciação estética não é racional e algo que possa ser expresso por palavras. Por outro lado, há sim na música um discurso que pode ser compreendido. Há convenções ou clichês que expressam algo conhecido por ouvintes e intérpretes de determinado estilo.

domingo, 26 de setembro de 2010

Friedrich Gulda e o jazz


No livro Arte do piano: compositores e intérpretes, o autor Sylvio Lago citando Charles de Bos, diz que "o fascínio pela interpretação jazzística talvez tenha prejudicado o modo musical de viver de Friedrich Gulda, pois as liberdades exigidas pelo jazz parecem inconciliáveis com as exigências da atividade pianística erudita". E em outras páginas do livro há essa colocação de que Gulda não era tão bom no jazz quanto no erudito.
Já eu acho isso um preconceito "paia". O pessoal fala do Friedrich Gulda como jazzista, mas pelo menos ele se arriscava a fazer. Tem muita gente que fala dos outros, mas nem tenta fazer.
Por ser brasileira eu não posso falar italiano? Não posso falar francês? Eu posso até aprender com sotaque, mas falo. O sotaque não impede que eu me expresse. Então acho que com a música é da mesma forma. Mesmo que o sotaque seja "erudito" (termo que não gosto de usar e explico o motivo em outra postagem), o músico é capaz de se expressar nessa outra linguagem que é o jazz. E a mistura de diferentes vertentes pode resultar até interessante. Por que não?
As pessoas têm uma neurose de autenticidade na interpretação. Tudo bem. É massa estudar sobre o compositor, a época, assimilar a sonoridade dos estilos, a forma como se faz o fraseado, articulações. Mas no fim das contas ninguém faz igual e isso é muito bom. Se fosse tudo igual seria muito sem graça.
Por isso é que falamos em interpretação. Não é reprodução, não é imitação. É INTERPRETAÇÃO.
O importante é fazer música sem neura.

Imitador de nós mesmos?

No DVD Conversa Noturna, documentário sobre a carreira e vida artística da pianista Martha Argerich, ela faz uma declaração interessante. Ela diz que temos que tomar cuidado para não sermos imitadores de nós mesmos. Eu sempre achei que não devemos imitar os outros. Devemos ter nossa identidade como intérpretes. Certa vez meu professor me perguntou se eu já tinha ouvido a peça que estava estudando. Eu disse que não. Eu prefiro sempre estudar, ter minha concepção da peça para só depois ouvir algum intérprete para que eu não venha a imitar o outro.
Já a Martha Argerich falou que não devemos imitar a nós mesmos. A cada dia devemos recriar, ter novas ideias, fazer uma nova interpretação. O que eu toquei ontem já não serve pra hoje. Muito interessante.

domingo, 29 de agosto de 2010

Aprender a ouvir e ler músicas novas



É importante no ensino da música o aluno tocar algo relacionado à sua vivência. No entanto, há alunos que só querem tocar o que já ouviram. É comum as pessoas irem em busca de aulas de piano querendo tocar pour elise, o primeiro movimento da sonata ao luar de Beethoven, a marcha turca e outras peças que são muito conhecidas. Há uma busca pelos clichês. No entanto, é difícil os alunos entenderem que há milhares de composições, uma literatura pianística imensa que pode ser explorada. Mesmo alunos que têm bastante tempo de estudo me pedem para tocar algo conhecido. Não se abrem para novas possibilidades.
Por que os alunos não se abrem para novas leituras e novas escutas? Na música tocada no rádio as pessoas até têm disposição para ouvir algo novo, mas em breve aquilo será jogado fora. É descartável. Se bem que o novo na mídia é o de sempre, pois os estilos comerciais se baseiam em clichês. Já na música de concerto as pessoas não se abrem para novas escutas. Querem ir ao teatro ouvir o concerto em lá menor de Grieg, o número 1 de Tchaikovsky, a sinfonia 5 de Beethoven e por aí vai. Essas realmente são obras muito belas e eu gosto de ouvir todas elas. No entanto, há compositores contemporâneos criando e o público precisa se abrir para esses novos caminhos ou mesmo para composições dos séculos XVIII e XIX desconhecidas.
A respeito de leitura, às vezes alunos me dizem: "Professora, não conheço essa música." Muitas vezes eles dizem isso como se isso impossibilitasse a leitura. Sei que para iniciantes é complicado a leitura rítmica. E então ouvir a música realmente facilita. No entanto, eu digo para eles que no processo de estudo, a leitura deve atingir a um nível no qual possamos ler músicas nunca antes ouvidas. É claro que tocar algo que faz parte da vivência conduz a uma aprendizagem significativa. Mas deve haver uma transferência para que as mesmas figuras rítmicas utilizadas numa música conhecida sejam executadas num outro contexto.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Qual é a tua obra?

As pessoas costumam dizer que antes de morrer é importante plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.
Estava lendo um livro intitulado Qual é a tua obra de Mário Sérgio Cortella. Segundo o autor, a ideia de trabalho como castigo deve ser substituída pelo conceito de realizar uma obra.
Observo que muitas pessoas não têm prazer em trabalhar.O funcionalismo público leva muito a isso. A ideia de realizar uma obra é bem mais ampla do que trabalho profissional, mas a questão profissional também está incluída.
É legal pensar sobre isso, pois em nossos dias o principal critério para definição profissional é o dinheiro e não a relevância da nossa contribuição para a sociedade ou o conceito de realizar uma obra.
Certa vez, um rapaz me perguntou se eu não desejava ter outra profissão. Não entendi se ele subestimou minha área de conhecimento considerando-a irrelevante ou se ele achou que os rendimentos financeiros não seriam grandes coisas. Outro rapaz certa vez me perguntou se a minha carreira era promissora. Depende do que ele entende como promissor. É ganhar dinheiro? É dar uma contribuição relevante para as pessoas?
Na área de artes e em música, a ideia de realizar uma obra está presente de forma muito clara. A composição, o arranjo, a interpretação trazem muito fortemente a marca de quem o faz.
Eu puxei a discussão aqui para o lado profissional, mas a discussão de qual é a nossa obra se torna bem mais ampla e tem a ver com o sentido que damos à nossa vida, por qual ideal lutamos, que atitudes tomamos. A nossa obra pode ser demonstrar humildade, ser solidário, ser honesto e íntegro enquanto todos querem "dar um jeitinho".

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Música de fundo

Nunca ouvimos tanta música como em nossos dias, porém há uma banalização. Houve uma época em que as pessoas tinham que caminhar muito para ir a um concerto ouvir música. Agora se tornou simples. Todos têm acesso ao rádio, aparelhos de som, CD,mp3.O mercado fonográfico está com dificuldades, pois muitas pessoas baixam músicas pela Internet.
Só que em pouquíssimas situações as pessoas param para ouvir. Em geral, a música é ligada como um fundo para fazer faxina, conversar com os amigos, happy hour num bar ou shopping, criando uma insuportável competição sonora.
Segundo Susane Langer, "o rádio, é claro, oferece todos os meios de aprender a ouvir, mas também abriga um perigo- o perigo de aprender a não ouvir; e este é maior, talvez, que sua vantagem. As pessoas aprendem a ler e estudar com música- algumas vezes música bela e vigorosa- tocando no fundo. À medida que cultivam a desatenção ou a atenção dividida, a música enquanto tal se torna cada vez mais um estimulante ou sedativo meramente psicológico (conforme o caso, ambas as funções são possíveis), do qual gozam mesmo durante conversas. Dessa maneira, elas cultivam a audição passiva, que é a própria contradição do escutar".
Um colega certa vez me disse que não consegue ouvir música fazendo outra atividade. Isso porque como ele é músico, a música o faz pensar na estrutura, harmonia, instrumentação, caráter, expressividade. A música o incomoda de tal forma que ele não se concentra para fazer uma atividade paralela.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Formas de tocar piano

Em sua dissertação de mestrado, Sara Cohen (1988) organiza a obra de Ernesto Nazareth em diferentes “formas de tocar piano” para utilização didática: notas duplas, arpejos, oitavas, acordes quebrados, cruzamento das mãos, acordes, trinados, saltos, acordes repetidos e outros. A classificação de maneiras de tocar piano proposta por Cohen é derivada da literatura pianística tradicional, citando autores como Beringer, Haberbier, Chopin, Moszkowski, Pishna, Cortot, Debussy, Hanon, Liszt, Czerny, Clementi.
Essa classificação em "formas de tocar piano" é muito interessante para pensar a didática em geral. Já vi programas de determinadas escolas em que se coloca para escolher 10 dentre 30 exercícios dum determinado livro. Analisando os exercícios, cada um trabalha aspectos diferentes. Então pode acontecer de um aluno escolher exercícios que trabalham oitavas e terças, enquanto o outro escolhe exercícios que trabalham acordes e arpejos. É importante que cada aluno experimente o maior número possível de "formas de tocar piano". As combinações são inúmeras, talvez infinitas, considerando o trabalho das duas mãos.
Mesmo havendo um programa didático com as peças classificadas em "formas de tocar piano", haveria limitações. Na "forma de tocar piano" oitavas, por exemplo, o contexto de cada peça acaba tornando diferente a utilização das oitavas, que podem apresentar saltos, ser oitavas cromáticas, com staccato, ligadas, em passagens cantabile ou de sonoridade percussiva. Apesar das limitações, a classificação em "formas de tocar piano" é uma interessante abordagem didática.
Quando a pessoa tem contato com poucas "formas de tocar piano", ela muitas vezes fica bitolada e limitada. Certa vez, eu conheci uma senhora que acostumou a tocar hinos na igreja com harmonia coral. E esse era o único estilo de partituras que ela lia e tocava. E muita gente tem dificuldade de ler e tocar em harmonia a quatro vozes. Só pra sentir que é só uma questão de experimentar, se habituar, praticar.