segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Comparações e individualidade




Cada pessoa é de um jeito. Até irmãos gêmeos têm personalidades distintas. Pensando em músicos, cada um toca de uma maneira. Então não é legal ficar comparando as pessoas.
Certa vez uns colegas estavam com esse papo. "Fulano toca melhor que aquele cara. Ichi. . . O Zé é muito pior que o João... Acho que sou melhor que ele". Aí viraram pra mim e perguntaram: " E você?" Aí eu falei: "Não toco melhor nem pior que ninguém. Eu toco como eu toco". Uma colega disse: "que filosófico!!". KKK.
Estava assitindo esses dias ao programa Instrumental Sesc Brasil. Além de uma apresentação ao vivo sempre tem também entrevistas com os músicos. Esse programa era com o grupo Pau Brasil. O baterista Ricardo Mosca que é um rapaz mais novo que os outros componentes disse que na adolescência era fã do Pau Brasil. E então quando ele foi convidado a tocar no grupo ficou muito feliz e ao mesmo tempo pensando em como seria o primeiro ensaio. Ele achou que chegaria lá e os caras o encheriam de partituras e diriam: "Toque assim, toque assado". Mas isso não aconteceu. Ele chegou e os caras o deixaram à vontade pra ele ir tocando. Muito interessante. Os caras não quiseram impor a ele uma maneira de tocar e nem compará-lo a bateristas anteriores. O resultado é a integração de uma musicalidade individual, uma contribuição diferente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Dá pra abraçar o mundo?


Estava debatendo no meio acadêmico sobre a questão da formação do instrumentista. Ainda há o estereótipo de que improvisação, espontaneidade e ouvido são atributos do músico "popular" e que técnica, leitura e refinamento são do músico chamado "erudito". Em outras postagens, falei o motivo de eu preferir o termo "música de concerto" ao termo "erudito". De qualquer maneira, rotular não é legal.
Eu estava defendendo uma formação integrada. Aí uma professora falou: mas como a gente faz? É muita coisa.
Eu concordo com ela que é muita coisa. Não dá pra abraçar o mundo. Tem tantas possibilidades de repertórios, de gêneros musicais. Alguns músicos se especializam em um compositor específico,um período da história da música ou um gênero.
Um professor que estava lá na discussão falou uma coisa interessante. O importante é o início da formação. Aí eu pensei que realmente. O início da formação não pode bitolar. Posteriormente ao se aprofundar mais ou se tornar profissional, a pessoa seleciona uma vertente, um compositor ou repertório.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Leitura relativa e direcionalidade

Às vezes o que parece óbvio, não é. Por exemplo, não é óbvio para alguns alunos que quando a bolinha sobe na pauta, a direção do teclado é para a direita.
É muito importante o trabalho de leitura relativa e direcionalidade. Há pessoas que por aprenderem somente a leitura absoluta, não conseguem ler um pequeno trecho pensando de maneira relativa.
Esses dias propus um exercício de leitura relativa. Não havia clave nenhuma. O aluno tinha que decidir por qual nota iniciar. Uma aluna viu uma nota na primeira linha e falou: "aqui é mi, né?" Eu disse que não. Se houvesse a clave de sol, aquela nota seria mi. Ela poderia decidir por qual nota começar. Aí ela repetiu: "Mas é mi, né?" Aí eu novamente expliquei.A ficha dela caiu e ela decidiu começar por outra nota.
A gente bitola muito fácil. Basta aprender algo de um jeito e a gente fica preso na caverna,pensando que só funciona daquela maneira. Um exemplo de bitolação, eram os métodos de dó central. Mas isso já é outra história.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Pianolatria

Mário de Andrade criticou a “pianolatria”, elevação do piano em detrimento da música orquestral ou de câmara. Para ele, a “pianolatria” limita o repertório, vicia o gosto do público e promove a prática de interpretação sentimentalista. Ele estava se referindo aqui ao início do século XX. Concordo com ele, embora o meu blog seja uma verdadeira "pianolatria". KKK.
Lembro-me de uma pessoa me dizer assim: "Os pianistas têm que parar de gostar de piano e começar a gostar de música". Concordo também. Não basta tocar mil notas por minuto,ficar com a cabeça no século XIX, estudar o repertório já estabelecido, ir ao recital de outros pianistas para falar mal. Se o pessoal estivesse preocupado em fazer música, essa competitividade "paia" acabaria.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Agradecer pegando no piano?

A gente não costuma pensar na origem das coisas. Para fazer o recital tem o protocolo de agradecer após as músicas. O público aplaude, a gente dá aquela abaixadinha. Até aí tudo bem. É um gesto de agradecimento. Não gosto muito de formalismos e protocolos, mas não adianta querer quebrar todos os padrões.
Mas tem algo que os pianistas fazem que eu me pergunto. Por que pegar no piano para agradecer? Vejo alguns fazerem isso. Nâo sei se começam a fazer para imitar outros pianistas que fazem isso. Sei lá qual o motivo. Eu, hein?!

domingo, 20 de setembro de 2009

Ai, meu ouvido!!!!



Ao mesmo tempo em que há uma valorização do glamour da imagem do piano, como já falei em outra postagem, há por outro lado, uma falta de valorização, como se o piano estivesse ultrapassado. A música veiculada pela mídia utiliza mais instrumentos elétricos e por isso, o ouvido de muitas pessoas não está acostumada ao instrumento acústico. Em muitas apresentações acústicas ouço algumas pessoas perguntarem: "por que vocês não usaram microfone?"
No decorrer da história os instrumentos foram aumentando a potência sonora. O cravo tem uma intensidade sonora maior que o clavicórdio. O fortepiano já apresenta uma maior potência que o cravo. E agora há ma maior utilização de instrumentos elétricos. Mas chega a um ponto em que nosso ouvido não suporta. Tenho ido a shows em que não consigo ficar nem 5 minutos. O numero de decibéis é bem acima do que o ouvido suporta.

Música boa tem muitos instrumentos?

Nada contra a música feita em conjunto. Por outro lado, algumas pessoas têm a concepção de que quanto mais instrumento, melhor a música. Depende do que se quer musicalmente. Há muitos grupos que não sabem montar arranjo e fica tudo embolado, pois os elementos musicais não estão divididos entre os instrumentos. Isso acontece muitas vezes na seção rítmico harmônica (base formada por bateria, contrabaixo, teclado e violão). Vira uma emboleira só, principalmente entre teclado e violão.







Certa vez, estava num lugar e várias bandas estavam tocando. Além da falta de um arranjo bem distribuído, havia também o problema da intensidade do som. E então entrou um cara e cantou se acompanhando apenas com o violão. Foi um descanso aos ouvidos. E não deixou nada a desejar em relação às bandas. Apenas a concepção era outra.

Piano e glamour da imagem




Há pessoas muito ligadas ao glamour da imagem do piano, principalmente o de cauda. É estranho demais.
Fui tocar num certo lugar em que as pessoas levaram uma armação de madeira que dava o visual de um piano de cauda. Mas era tudo oco. No lugar do teclado, havia um Kurzweil SP-88. Achei muito estranho essa exaltação tão grande da imagem. Fiquei bastante encucada de onde o pessoal havia tirado aquela ideia. Aí fui assistir na TV ao show do Roberto Carlos. Havia um "piano branco" no palco. Mas notei que não era um piano. Era também só a estrutura de madeira oca com um teclado (instrumento elétrico).
E a questão é que a diferença do instrumento acústico em relação ao elétrico não é o glamour da imagem. É a diferença de sonoridade devido à estrutura do instrumento. No instrumento acústico acontece a vibração das cordas, a ressonância, uma série de coisas que diferencia a sonoridade.

Imaginação orquestral e notas imaginárias.

"O piano é o microcosmo da música". Liszt.

Por ser um instrumento harmônico, o piano é muito utilizado para acompanhar e compor. Devido a isso também, ele permite muitas possibilidades no repertório solo.
No estudo de muitas peças, os professores nos incentivam a fazer o exercício de imaginação orquestral, devido à concepção do piano como "substituto" da orquestra. Substituto não é uma palavra boa. Espero encontrar uma palavra melhor pra expressar isso. Não dá para substituir os diferentes coloridos dos naipes de metais, madeiras, cordas. Mas o fato é que os elementos de melodia, acompanhamento,ritmos contrastantes, planos sonoros podem estar todos presentes na escrita para piano.
Certa vez, ouvi o baixista Adriano Giffoni tocar e fiquei impressionada como ele conseguia passar para o contrabaixo os elementos do samba.
Na mesma época, ouvi o pianista Cliff Korman fazer um solo e tive o sentimento de que o contrabaixo e a bateria estavam lá. Ele conseguiu transmitir isso. Aí alguém do público gritou: "É muito demais!!!!"
No livro "Harmonia e estilos para teclado", Antônio Adolfo coloca quatro elementos que podem estar divididos entre os instrumentos: melodia, harmonia, pulsação e linha do baixo. Nos instrumentos mais usados na base rítmico-harmônica, a melodia e harmonia são feitas pelo piano (teclado) e violão (guitarra), a pulsação na bateria e a linha do baixo pelo contrabaixo. Esses elementos podem estar presentes num acompanhamento somente para piano.
E o mais legal é que nem sempre as notas que representam determinados elementos (linha do baixo, pulsação) estão presentes. Muitas vezes esses elementos ficam implícitos pela maneira como a pessoa toca.
Embora o piano seja um instrumento mais versátil para exercer essa imaginação orquestral e de conjunto, outros instrumentos também permitem essa idéia,muitas vezes pelo que está implícito e que se manifesta no sentimento passado na interpretação. Então podemos dar significado não somente às notas que estão presentes, mas também às que poderiam estar. É uma idéia minha. Talvez seja maluquice.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Sentir o ritmo



Certa vez estava ensaiando com um percussionista e aí perguntei: "como a gente faz? Conta quantos compassos para a entrada?". Aí ele falou: "Tem que ir no sentimento". E tenho ouvido coisas parecidas em outras situações. Outra expressão que ouço é "sentir no corpo".
A relação de ritmo e corpo é conhecida. Nas escolas de samba é incrível como os passistas realizam os movimentos sincronizados com as quebradas da bateria.
Por outro lado, segundo Gramani, nós às vezes temos um conceito matemático de ritmo. Alunos que estudaram presos à partitura já me disseram que não tocam sem contar nem mesmo uma música que tocam há muito tempo. É importante "pegar o ritmo de ouvido" e esquecer a contagem. Isso contribui para a fluência da música. Quando a gente fica muito bitolado na contagem, muitas vezes não vê o macro-ritmo, o ritmo maior. Esse macro-ritmo está muitas vezes nos motivos que constroem a música e nas frases. Alguns métodos de leitura rítmica, como o Prince, trabalham com células maiores ao invés de ficar preso numa contagem a cada tempo. Vou dar um exemplo simples baseado no conhecido minueto em sol maior de Bach. Na primeira linha podemos ver o motivo maior A+B duas vezes. Na segunda linha, três vezes o motivo A. Com esses motivos, já vemos o ritmo de forma maior do que contar cada tempo. E por fim, podemos enxergar o ritmo maior da frase, um padrão de 8 compassos. O ritmo dos compassos 1-8 é igual ao dos compassos 9-13. Temos aqui uma estrutura de antecedente e consequente.



Mas a questão de representação do ritmo é muito complexa. Carol Gubernikoff fez uma tese que fala do ritmo. Não me lembro muito bem do título. Tem algo como "Das representações aos tempos". Numa determinada aula, me lembro que ela disse: " a gente fala pro aluno que a mínima é o dobro da semínima como se fosse a coisa mais natural do mundo. Gente, isso é dificílimo." A representação do ritmo é mesmo complexa.

Música como profissão

Vira e mexe ouço a frase: "Você não tem vontade de ter outra profissão?"
Lembro-me de certa vez perguntar para um moça que era conhecida de infância e que anos mais tarde, nos reencontramos na mesma faculdade de música : "Qual o motivo que leva alguém a experimentar um cigarro pela primeira vez?" Eu estava falando que como a fumaça e o cheiro são desagradáveis, nenhum não fumante gosta. E ela respondeu: "O mesmo motivo que leva alguém a fazer vestibular pra música." KKK.
Isso não sigifica que eu concorde com o desprezo à profissão.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Leitura e/ou ouvido?

Embora já tenha acabado há muito tempo nos conservatórios a proibição de "tirar de ouvido", há pessoas que ainda pensam haver uma oposição entre leitura e ouvido. Uma aluna me perguntou se ela teria que parar de tocar de ouvido. Na verdade, tocar de ouvido, favorece a leitura.Se fizermos uma comparação com o idioma, quando uma criança é alfabetizada, ela já compreende e fala.
No aprendizado musical, o que acontece muitas vezes é que a pessoa que toca de ouvido, tem preguiça de aprender a grafia tradicional. Por outro lado, quem começa a aprender com a leitura de partitura, corre o risco de não desenvolver o ouvido. Depende da maneira de ensino.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Dedilhado

Às vezes alunos iniciantes perguntam como colocar dedilhado numa música. Em geral, a gente não sistematiza para o aluno como fazer isso. Daí decorre a dúvida deles. O conhecimento de como fazer isso se desenvolve aos poucos. O aluno se familiariza com certos padrões como escalas e arpejos e outros padrões que acontecem no contexto das músicas e transfere para outras situações. José Alberto Kaplan fala da transferência de aprendizagem em seu livro Teoria da Aprendizagem Pianística.
Tem uma dissertação de mestrado cujo título é "Sistema Inteligente para o Ensino do Dedilhado Pianístico". Muito interessante. O autor, Alexandre Bezerra Viana, desenvolveu um programa que dá as possibilidades de dedilhado. Formado em música, ele fez mestrado em Ciências da Computação.
É legal a gente sistematizar algumas coisas para o aluno. O dedilhado depende do que aconteceu anteriormente e do que virá em seguida.
Inicialmente a base são os 5 dedos com a mão em posição fechada, ou seja, um dedo para cada tecla. (Foto 1)



Se o trecho musical permite a mão em posição fechada, não tem motivo para fazer uma terça com os dedos 2-3, por exemplo. Nesse ponto eu sou chata mesmo. Kkkk. Se o trecho permite a mão em posição fechada é mais cômodo fazer uma tríade em posição fundamental com os dedos 1-3-5; a terça com os dedos 1-3, 2-4 ou 3-5; a quarta com 1-4 ou 2-5.
As pessoas que começam a tocar sozinhas tendem a usar os dedos 1-2-4 (Foto 2) ou 1-2-3 (Foto 3) para as tríades em posição fundamental. (O 1-2-3 seria ideal se fosse para dobrar a fundamental com a mão em posição aberta e aí ficaria 1-2-3-5.) Não sei se este tipo de dedilhado gera posturas inadequadas ou se as posturas inadequadas são devido a aprender sozinho. Mas em geral essas pessoas deixam a mão baixa e com uma inclinação para os lados. O alinhamento do pulso não é o mais adequado.
É interessante pensar sobre isso já que, cada vez mais, as pessoas procuram tocar sem auxílio de um professor. Elas pegam uma cifra na Internet, por exemplo, e no site tem um gráfico com um tecladinho que mostra com quais notas pode-se tocar determinado acorde.Começa-se a tocar sem a preocupação com postura, dedilhado.






Cláudio Richerme até recomenda a inclinação da mão em supinação para realizar acordes com oitava em teclas brancas. Mas em muitos casos, isso deve ser evitado. É melhor não seguir os exemplos das fotos 2 e 3.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Competitividade e chatice



O meio musical chamado "erudito" tem uma competitividade e uma chatice muito "paia". Algumas pessoas vão ao recital das outras para ver os erros. Aí comentam: "no compasso 145 ele esbarrou no fá sustenido". E a obra como um todo?
O ser humano erra. Se você colocar um MIDI de computador pra tocar, ele não erra, mas não tem expressividade.
Algumas pessoas precisam começar ver as pessoas não como um robô de tocar, mas como um ser humano. Será que esse pessoal nasceu aqui na terra? O ser humano tem seus altos e baixos. Adoece, fica ansioso, passa por crises. Não é pelo muito praticar que o corpo vai responder sempre da mesma forma. Não responde. Não é uma máquina de precisão.
Eu comentava com um colega: "Pra que essa bobeira de falar mal do outro?". E ele me dizia: "é pra elitizar". O pessoal quer passar uma imagem de que a música chamada "erudita" é muito "elevada", "inatingível". Por isso, há uns poucos privilegiados que conseguem tocar. É uma ideia burguesa. O mundo é dos fortes. Os fracos que se ferrem.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Associações extra-musicais



Estava começando a estudar o Coral (Canto do Sertão), segundo movimento das Bachianas Brasileiras 4. Entrou na sala um rapaz e falou: "O que você anda tocando nas horas livres?" Aí eu falei: "essa aqui é uma delas". Toquei um trecho do início e ele falou:"tem um lamento aí, né?" Ele ouviu o canto e percebeu isso. Eu concordo com ele. Villa-Lobos soube passar muito bem essa idéia.
Mas a partir disso a gente pode entrar numa velha discussão que é a associação da música com idéias extra-musicais. Para Hanslick,a significação é dada pelo intérprete e pelo ouvinte, pois a música em si não pode expressar nenhuma idéia extra musical.
Um senhor que eu conheço disse que as trilhas sonoras estão fazendo as pessoas sempre associarem algo à música. Às vezes alguém diz pra ele que um trecho é de terror e ele acha que a melodia é super lírica. Isso confirma o que Hanslick disse. Depende do ouvinte.
Aqui tem dois vídeos do segundo movimento da Bachiana Brasileira 4, um com piano e o outro com orquestra. Ouçam aí e deixem que a música fale por si.

domingo, 13 de setembro de 2009

Cânon estabelecido




Os professores do local onde eu trabalho estavam debatendo sobre a questão de aulas. Um deles falou que em pintura as pessoas aprendem uma técnica e aplicam criando sua própria tela.Aí um professor falou:"em música é diferente. No piano,por exemplo,a gente precisa passar por todas aquelas músicas tradicionais". Um outro falou: "SERÁ QUE TEMOS?"
As pessoas podem aprender música de forma bem diferente de como era a formação tradicional de conservatório. Não é obrigatório passar pelo cânon tradicional.
Num filme em que assisti certa vez. . . Não me lembro do nome do filme, nem o pianista que está tratando dessa questão. Mas ele fala que não é obrigatório um pianista passar pelo Cravo bem temperado, estudos de Chopin, as 32 sonatas de Beethoven e por aí vai. Ele dizia que um pianista pode ter uma técnica excelente e optar por repertórios diferentes.
Isso não significa que eu aloprei com o cânon e "chutei o balde". O conhecimento que esses e muitos outros compositores nos deixaram é muito significativo.

sábado, 12 de setembro de 2009

Criatividade e piano



Uma aluna um dia me disse que para artes visuais precisa de criatividade, mas para piano, não. Ela estava com a ideia de que tocar piano é ler o que está escrito, mas se enganou no seguinte aspecto. Até mesmo para executar uma partitura é necessário criatividade. Interpretar é uma recriação. O caráter, andamento, articulação, fraseado, pedal, sonoridade, dinâmica podem variar muito de um intérprete pro outro.
Além disso, o piano não existe somente para interpretar peças já escritas. Conheço um rapaz que não conhece nada de teoria, nada de partitura, não sabe como é a formação dos acordes. Mas ele arrebenta no teclado. Toca num grupo especializado em música latina. Improvisa muito. Tira de ouvido padrões difíceis de salsa. Eu o admiro muito como músico.
Num outro dia eu havia comentado com essa mesma aluna de pessoas que não sabiam ler partitura, mas tocavam muito. Tiveram outro tipo de aprendizado. E ela falou: "Mas como? Como eles fazem?" Como ela teve um aprendizado sempre vinculado à grafia, não consegue imaginar como poderia ser de outra forma.
Não estou com isso dizendo que não é importante o aprendizado da leitura. Estou somente dizendo que o fazer musical pode acontecer sem a partitura. O fazer musical precede a leitura. A representação de algo surge após a existência da prática.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Música e seu tempo



Uma aluna chegou para ter a primeira aula comigo. Quando ela entrou na sala, eu estava estudando uma peça de Mozart. Ela disse: "Eu gostaria de tocar isso. Mas pra que vou tocar?" Para ela, é uma música descontextualizada, fora do nosso tempo e que as pessoas não vão se dispor a ouvir.
Por que a interpretação histórica? Harnoncourt levanta este questionamento.Cravos e fortepianos estão sendo fabricados para interpretar suítes de Bach e concertos de Mozart com uma sonoridade mais próxima da época. Por outro lado, poucas pessoas querem ouvir peças novas produzidas em nossos dias.Na época de Bach, Mozart, as pessoas iam ao concerto para ouvir a cada vez uma nova composição. Atualmente, as pessoas vão a concertos para ouvir peças conhecidas principalmente dos séculos XVIII e XIX. Os compositores contemporâneos da música de concerto ficam felizes quando alguém se dispõe a tocar suas peças. Um certo colega me disse que faria uma tese só pra dizer que a música do século XX é horrível. Kkk. Eu ria muito dele. Eu gosto de ver essas opiniões malucas.
Tem um colega de trabalho que sempre comenta comigo sobre a separação entre a música e seu tempo. Ele fala de brincadeira que se Mozart nascesse em nosso tempo, ele tocaria guitarra.
A gente precisa incluir a criação no ensino da música. Nas aulas de pintura, por exemplo, as pessoas aprendem determinada técnica e criam sua própria tela. Ao estudar uma peça de Mozart, por exemplo, podemos propor ao aluno que crie um antecedente e consequente na textura de melodia e acompanhamento com baixo de Alberti. Não basta tocar o que está escrito. A estrutura e escrita precisam ser compreendidas. Luiz Eça tocava improvisando à maneira de Bach, Mozart, Chopin e outros, porque dominava os padrões de teclado desses compositores e podia criar um trecho musical semelhante sem uso de partitura.
Quando fiz um curso de verão de teclado, o professor falou que esperava que a gente tocasse bem, mas principalmente que criássemos. Ele falou que precisamos de pessoas que levem a música pra frente. O mais importante, para ele, é a originalidade no tocar.
Agora, sobre tocar obras do passado, existe um argumento muito legal. Daniel Barenboim, referindo-se ao Cravo Bem Temperado disse o seguinte: "Como todas as grandes obras-primas, possui dupla face: uma para seu tempo e outra para a eternidade".

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Erudito" x "popular"


Em determinados contextos é difícil estabelecer uma fronteira entre popular e erudito. Nem mesmo quanto a cada um dos termos há um entendimento preciso.
O termo erudito é visto por alguns como pejorativo por considerar a música popular inferior e menos elaborada. Em oposição a essa idéia, coloca-se que há músicas populares muito bem elaboradas como o jazz e o choro. Por isso, muitos preferem a expressão música clássica. Contudo, clássico designa também um período específico: a música composta no século XVIII por compositores como Haydn e Mozart. Eu prefiro utilizar o termo "música de concerto".
O termo popular também é controvertido, porque pode designar música do povo ou para o povo. Muitas vezes, essa diferença é destacada utilizando a expressão música folclórica para designar a música do povo e música popular para a música divulgada pela mídia. Os limites, nesse caso, também são tênues e discutíveis porque uma música folclórica pode ser incorporada pela indústria cultural. O uso do termo popular traz também o problema da delimitação do povo, que pode se referir a um grupo étnico, classes menos favorecidas ou comunidade nacional. A conclusão a que se chega é que não há apenas uma música popular, mas músicas populares.
Em relação aos músicos dessas vertentes, são recorrentes as seguintes associações: música de concerto – técnica, refinamento, disciplina e bom gosto interpretativo; música popular – espontaneidade, liberdade, improvisação, riqueza rítmica. Essas associações são estereotipadas, embora em certa medida sejam verdadeiras.
Se a improvisação é característica da música "erudita" o que são as cadências nos concertos clássicos? E a cifragem da música barroca? Bach, Mozart, Liszt e muitos outros eram bons improvisadores.
Conta-se que Luiz Eça era desclassificado dos concursos de piano por improvisar em sonatas de Mozart. Ele devia fazer de propósito, só pra quebrar o protocolo. Não dá pra acreditar que ele fazia querendo vencer o concurso. KKKK. Eu queria ver a cara dos jurados.
Quando estava na faculdade, fazia uma matéria em que a gente praticava improvisação. O professor fechava a porta e falava assim: "Não posso profanar a santa instituição". KKKK.
No capítulo 22 do filme Nelson Freire, intitulado "Uma frustração", ele diz: "Olha, eu tenho uma inveja de quem sabe tocar jazz incrível. Sabe assim uma coisa que eu adoraria? Por exemplo, chegar assim e de repente. . ." Nesse momento, ele pára de falar e aparece uma cena de um pianista de jazz tocando com humor e descontração na formação tradicional de trio. Aí ele continua a falar com a música rolando: "Improvisar e tocar. . . Tenho fascinação pelo Errol Garner. Eu nunca vi ninguém tocar com tanto prazer. Sabe? Um PRAZER assim!!! Ele para de falar um pouco e ri. "Alegria. Alegria de tocar. Isso me levou ao piano. O piano era o momento, quando era pequeno, eu tinha um prazer. Eu não saio satisfeito de um concerto se não tiver pelo menos um minutinho disso. Os pianistas clássicos antigamente tinham essa alegria. Rubistein tinha isso. O Horowitz tinha isso também. Guiomar Novaes tinha isso. Martha Argerich tem isso. Aí a pessoa que está conversando com ele pergunta: "E você? Ele fica calado e faz um olhar engraçado. Aí termina a cena.
Segue abaixo um video para vocês verem o Errol Garner tocando. É muito engraçado quando ele toca um trecho da marcha nupcial.

Martha Argerich em entrevista à revista francesa clássica disse: "Eu lamento profundamente de não ter aprendido a arte da improvisação. Bom...eu ainda estou viva! Quem sabe eu ainda não aprendo a fazê-lo um dia."

Ensino de instrumento e concepção estética




Alunos que já estudaram bastante tempo de piano me dizem: "Bartók é horroroso. Estudei o Mikrokosmos na marra, porque o professor obrigou".




O que acontece muitas vezes no ensino do instrumento é que o aluno não entende a concepção estética do que está sendo tocado. Se eu perguntar para o aluno qual o motivo de Mozart ser "bonito" ele não sabe me dizer. A questão é que os ouvidos só estão acostumados ao tonalismo. No entanto, o aluno não sabe o que é o tonalismo. Não consegue montar um simples acompanhamento com I, IV, V para o parabéns pra você, por exemplo. Não sabe como a organicidade acontece nesse sistema.
Ao ler partituras, ele lê as notas e leva a mão nas teclas, mas não tem a mínima noção de como foi estruturado.É necessário um ensino que leve em conta a compreensão.
Certo dia comentei com uma aluna que a arte não necessariamente tem que ser "bonita". Eu estava falando sobre concepção estética.No livro Discurso dos Sons, Harnoncourt discorda da concepção da música apenas como algo “belo”, um ornamento. Para ele, “não se trata de se deixar envolver pelos sons, mas sim de escutar ativamente”. O ouvinte não deve se ater à beleza ou feiúra, mas à compreensão da obra como um todo. Segundo Harnoncourt, “[hoje em dia] não queremos mais ser transformados pela música, mas unicamente gozar belas sonoridades”. Para Harnoncourt, tanto o intérprete como o ouvinte precisam conhecer as várias linguagens da música e assim o intérprete poderá construir um discurso, cuja significação será compreendida. Como consequência, a separação entre “música popular” e “música séria”, assim como entre a música e seu tempo, desaparecerá, e a vida cultural irá encontrar novamente a sua unidade.
Em outra postagem falarei mais sobre essa dicotomia entre "música séria" e "música popular". A separação entre a música e seu tempo também é um bom assunto a ser tratado.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Preconceitos: teclado x piano





Lembro-me de uma colega pianista dizer certo dia que "odeia teclado", referindo-se ao instrumento elétrico. Por outro lado, há pianistas que apreciam o teclado. Chick Corea, por exemplo, utiliza tanto o instrumento acústico quanto o elétrico em suas apresentações. Os teclados são muito utilizados na iniciação ao piano nas aulas em grupo.
Vou falar aqui de duas declarações ouvidas que demonstram preconceito.
1- Certo aluno disse: "Não gosto de teclado. Acho feio tocar por cifra.O acorde parado é muito feio. No piano tem arpejos".
A concepção de que tocar por cifra é tocar a melodia com a mão direita e o acorde parado na esquerda está errada. O acorde pode ser organizado de várias maneiras. No instrumento elétrico a mão esquerda pode se movimentar. O fato de alguns métodos terem essa característica de melodia na mão direita e acorde "paradão" na esquerda não significa que tocar teclado é isso.

2-Uma professora disse: "Tem que ser ensinada a clave de fá para os alunos de teclado porque a mão esquerda deles está só com o acorde parado."
O aluno pode aprender a fazer melodias na mão esquerda e arpejos sem precisar da grafia musical. O que precisa ser estudado são outras maneiras de se tocar. A clave de fá é apenas a representação disso. Não que o aprendizado da leitura não seja relevante.