sábado, 30 de março de 2013

Ensaio sobre a maneira correta de tocar teclado


Estou lendo o tratado de Carl Philipp Emanuel Bach intitulado "Ensaio sobre a maneira correta de tocar teclado". A palavra "teclado" diz respeito aos instrumentos da época: o cravo, o clavicórdio e o pianoforte. A tradução foi publicada pela editora da UNICAMP em 2009. É uma leitura muito importante à corrente que promove a interpretação histórica, pois muitos aspectos dizem respeito ao estilo musical da época. O autor trata de assuntos tais como dedilhado, ornamentos, execução e baixo cifrado. Apesar da questão da época, a leitura é muito interessante para todos os pianistas e professores, pois trata de princípios gerais do ensino e execução do instrumento que são relevantes de qualquer maneira. Cito abaixo um pequeno trecho interessante sobre execução: "Mas em que consiste a boa execução? Em nada mais que a faculdade de, ao cantar ou tocar um instrumento, tornar o ouvido sensível a ideias musicais, de acordo com seu caráter a afeto próprios. Pois sua diversidade pode transformar uma ideia a ponto de que o ouvido não possa mais reconhecê-la".

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Distonia focal do músico

Distonia focal do músico

A distonia focal do músico é um distúrbio neurológico que se caracteriza pelas contrações involuntárias ao tocar. É decorrente da plasticidade cerebral. A plasticidade é na maioria das vezes vista como algo positivo. É ela que nos permite aprender. É também devido a ela que algumas pessoas depois de uma AVC recuperam algumas funções perdidas, pois o cérebro faz conexões por outros caminhos.
A distonia focal é uma consequencia negativa dessa plasticidade. No momento de estudo, o cérebro do músico faz conexões indesejadas que geram as contrações involuntárias. Em pianistas, em geral, os problemas surgem na mão direita. Os dedos não obedecem aos comandos.
São interessantes as teorias dos neurologistas. Ao estudar muito a independência de dedos, o mapa do cérebro responsável pela área de cada dedo cresce, sobrepondo a área de dedos vizinhos.Ao fazer passagens rápidas, o cérebro processa como se dedos vizinhos fossem um só e confunde o comando deles.
Dentre músicos que foram atingidos pelo mal, podemos citar os pianistas Leon Fleisher e Gary Graffman; os violonistas Bad Assad, David Leisner e Zezo Ribeiro; o oboísta Alex Klein. Há suposições também de que Glenn Gould em certo momento da carreira tenha sofrido do mal.
Um dos tratamentos utilizados é injetar Botox no braço. O pianista Leon Fleisher afirma ter voltado a tocar devido ao uso de Botox no braço direito. Após 40 anos sem tocar com a mão direita, ele gravou o disco two hands
Tem um outro tipo de tratamento, o SMR (Sensory Motor Returning) que imobiliza os dedos que realizam movimentos compensatórios. Sâo realizados estudos dessa forma até que cessem os movimentos involuntários.
Uma pesquisa foi realizada entre pianistas distônicos. Todos eles abaixavam o metronômo até a velocidade em que não havia movimentos distônicos e subia aos poucos. Este procedimento deu resultado. Os movimentos distônicos cessaram ou diminuíram muito.
Já o Tauman Institute realiza um trabalho com uma abordagem de alinhamento do corpo que ajuda muitos pianistas nessa condição. Em geral, ao modificar a postura inadequada, os movimentos involuntários desaparecem ou diminuem muito. Deixo o link de dois sites para quem quiser visitar.
http://www.wellbalancedpianist.com
http://www.taubman-institute.com/html/home.html

O distúrbio parece estar associado a um tipo de personalidade: perfeccionista, rígido consigo mesmo e obsessivo. Este assunto me interessa, pois eu mesma passei por esse problema. No meu caso, houve vários fatores para começar a ter o problema: estudo excessivo sem pausas e alongamentos, obsessão, postura inadequada, mudança de técnica, ansiedade e perfeccionismo. O que aconteceu comigo é uma longa história. Depois posto contando com mais detalhes.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Pianos: diferenças e adaptação


O pianista tem que se adaptar a um instrumento diferente do que estuda sempre que vai se apresentar. Pessoas que tocam outros instrumentos não passam por isso. Segue abaixo um vídeo do documentário sobre Nelson Freire. Tem um trecho do filme que se chama "Um cacoete". É bem interessante, pois todas as vezes em que Nelson Freire vai testar um piano, toca o mesmo trecho musical. Provavelmente é uma maneira dele sentir sua adaptação ao mecanismo do teclado e à sonoridade do instrumento. Num outro trecho do mesmo documentário, ele não gosta da resposta de um determinado piano. Pede para o afinador ajustar o instrumento e mesmo assim continua sem gostar. Não dá para entender o motivo, pois para nós que ouvimos, está perfeito. Mas provalmente ele queria uma resposta a que ele estava acostumado em outro instrumento e aquele não correspondia.

terça-feira, 8 de março de 2011

Um piano na estação

Não costumo falar muito no blog sobre minha vida pessoal. Às vezes dou exemplo de experiências minhas, mas costumo escrever mais reflexões gerais.
Hoje falarei sobre um fato interessante que aconteceu comigo. Viajei para São Paulo esses dias. Cheguei na estaçao da Luz no metrô, pois queria visitar o museu da língua portuguesa. Ao chegar, vi uma placa que dizia: cuide bem do nosso piano. Aí fiquei curiosa e fui olhar de que se tratava. É um projeto de um artista em parceria com o SESC. Há três pianos: dois deles ficam fixos nas estações e um deles é itinerante; fica mudando de estação. Todos podem chegar e tocar.
Eu me aproximei do piano e um senhor me disse: estava aqui há 10 minutos esperando alguém para tocar. Eu comecei a tocar e juntou um pessoal em volta. Gostei muito da interação que pode ser criada entre quem está tocando, as pessoas que passam pela estação, pianistas muito bons e outros principiantes, pessoas que nem tocam mas experimentam. E na placa tem também um dizer interessante: "para cada um dar uma palhinha do que sabe". O senhor com quem conversei estava empolgado e gosta muito de ouvir. Ele disse que sempre pára na estação à espera de alguém que possa tocar.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sobre gravação: sua utilidade e problema

Eu gosto muito da gravação e de todas as utilidades que ela traz como registro do som. Para nosso estudo de instrumento, é muito útil gravar e depois fazer uma auto-avaliação.
Eu costumava ir para um estúdio na casa de um amigo e gravávamos o ensaio inteiro. Era muito interessante poder nos ouvir. Acontecia um efeito "big brother". Esquecíamos que estava gravando e agíamos com espontaneidade.A gravação captava os melhores momentos quando estávamos bem aquecidos e descontraídos. Depois extraíamos os melhores momentos e passávamos para um CD. Era só uma experiência de estudo.
O problema que eu vejo na gravação que, para outros, pode ser solução, é a maneira artificial como se trabalha em estúdios. Muitos veem isso como vantagem e facilidade da tecnologia. Já eu vejo muitas vezes a gravação de estúdio como uma perda da humanidade na interpretação. Por que digo isso? É que vários trechos colados não são a minha execução. São notas que eu toquei, mas não num todo. É verdade que é mais fácil com os métodos utilizados obter uma perfeição que para gravações comerciais muitas vezes é requerida.
Eu sou antiquada. Eu gosto mesmo é da gravação ao vivo. No caso do pianista, pode acontecer umas esbarradas, mas tem uma emoção que não pode ser substituída por perfeição artificial. No ao vivo, tem a interação dos músicos no caso de se tocar em grupo. A pulsação não vem através de um metrônomo, mas da sintonia com o outro.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Liberdade e estudo de interpretação

Certo colega há muito tempo me disse que não gostava muito do estudo de piano porque às vezes o professor dizia que um certo trecho tinha que ser tocado de determinada maneira. E ele se questionava: Mas por que tem que ser assim?
Conheci certa vez um garoto que na época deveria ter uns 15 anos e ele dizia que na frente do professor e ao disputar um concurso de piano, ele tocava tudo "certinho" como o professor pediu. Mas quando ia tocar pra amigo, ele não estava nem aí. Acelerava ou ritardava, exagerava no fortíssimo da maneira como o professor falou para não fazer. Eu ri demais e achei muito legal.
A questão é que deve haver na interpretação uma coerência com o estilo da época e do compositor. E isso implica em como se faz o fraseado, agógica, articulação,sonoridade, dinâmica. Porém parece haver já uma herança, um padrão interpretativo em certas peças que de certa forma tiram a liberdade. Às vezes quem ousa fazer diferente é questionado. Glenn Gould, por exemplo, foi muito questionado a respeito do andamento que executava certas peças.
O limite é muito tênue entre buscar uma interpretação coerente e perder totalmente a liberdade.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Precisa entender ou basta a contemplação?




Música é pra ser entendida? Por um lado, existe a compreensão estética do que está acontecendo. Segundo Harnoncourt, a compreensão da linguagem musical é importante para que a música reencontre sua unidade, perdida entre música popular e música erudita e também entre música e seu tempo.
Por outro lado, há pessoas que não nasceram num meio que favorece a convivência com a música de concerto, mas gostam mesmo assim.
Meu pai nasceu na fazenda e só foi alfabetizado aos 14 anos. Na juventude quando se mudou para uma cidade grande, ouviu pela primeira vez o concerto 1 de Tchaikovsky para piano e orquestra e ficou encantado.
Certo rapaz que recentemente ouviu um recital de obras de Cláudio Santoro e Guerra Peixe disse que não entendeu nada, mas gostou. kkkkkkk. Algumas dessas obras eram dodecafônicas, totalmente diferentes do que habitualmente se ouve por aí no rádio e na mídia em geral.
Arnaldo Cohen em uma entrevista disse que certa vez tocou e um funcionário do teatro ouviu o tempo inteiro atrás da cortina. Falou para ele que aquilo era do céu. Com isso ele queria dizer que bastava a contemplação da arte. Não precisava de muitos aprendizados e achar que é algo "elevado" demais para sua compreensão.
Realmente a apreciação estética não é racional e algo que possa ser expresso por palavras. Por outro lado, há sim na música um discurso que pode ser compreendido. Há convenções ou clichês que expressam algo conhecido por ouvintes e intérpretes de determinado estilo.